Aquele dia parecia como qualquer outro na rotina de Márcia. Nascida em
uma área de classe média de São Paulo, não queria mais morar na casa dos pais
e, com a finalização em sua formação de fisioterapeuta, poderia ter a tão
desejada independência e trabalhar com o que sempre quis: cromoterapia. Como
uma boa pisciana, sempre se considerou uma pessoa equilibrada ou, como ela
mesma diz, com todos os chacras alinhados. Conforme a terapia das cores,
podemos dizer que seu dia começou azul, tom frio, portanto, relaxante. Mas,
algumas horas depois, o azul deu lugar ao amarelo, um tom acima, após receber a
ligação de um recrutador chamando-a às pressas para uma entrevista de emprego,
em um centro de orientação espiritual voltado para a cromoterapia, naquele
mesmo dia, depois de ocorrer uma desistência. Márcia não tinha carro, seus pais
não estavam em casa e ela, tampouco, sabia o que vestir. Decidiu, então, ligar
para sua vizinha Maria, que a ajudou emprestando uma roupa social adequada e se
oferecendo para levá-la em seu carro.
As paulistanas saíram o mais rápido que puderam e decidiram pegar um
caminho alternativo que as levaria mais rápido para o Brooklin, onde era o
centro Deuseluz. Márcia agora se encontrava na cor laranja, tom que intensifica
o ambiente, por estar cercada de incertezas: em parte por não ter experiências
em trabalhos prévios e não ter tido tempo para se preparar para a entrevista e,
por outro lado, por ser aquela talvez a única chance de finalmente conseguir
sua autonomia.
No meio do caminho, se deparou com um acidente que a atrasou para sua
entrevista, impedindo-a de chegar no horário marcado, o que fez com que Márcia,
em sua essência tão calma e pacífica, se intensificasse na cor vermelha, mais
nervosa e estressada. Saindo de sua entrevista, que não havia sido como ela
esperava, e indo em direção ao carro, um assaltante chegou de repente com uma
faca, gritando e exigindo dela que entregasse sua bolsa. Em uma rua deserta
como aquela em que Márcia se encontrava, não seria fácil conseguir ajuda.
Márcia, então, em seu instinto mais natural e animalesco, começou a vociferar
para o homem dizendo como seu dia havia sido estressante, desde as roupas e
indo até o final de sua péssima entrevista, falando sem pensar nas consequências
e que, por isso, não entregaria sua bolsa e nem nada que ele quisesse. Era como
se as palavras não fizessem mais parte de seu corpo e toda essa raiva estivesse
sendo guardada há anos, esperando somente um gatilho para escapar.
Após chegar finalmente ao magenta, o tom mais quente de todos, e ter
todos os seus chacras desalinhados, Márcia não parou um segundo de esgoelar-se
e continuou jogando todos os seus problemas para o assaltante, que começou a
ficar assustado, acabou cedendo e disse “tudo bem, moça, relaxa aí, pode ficar
com sua bolsa”. Márcia nunca agradeceu tanto ter se permitindo descontrolar por
um momento que fosse, deixando um pouco de lado a pacificidade que empregava em
seu ser com todas as sessões de ioga, terapia e meditação.
A partir de então, ao entrar no carro, aliviada por estar com todos os
seus pertences, sua maior preocupação seria contar a seu pai, pois ele
ensinou-a, desde pequena, a nunca reagir a um assalto: sempre disse que, em
situações de perigo, era para entregar tudo e se manter segura, principalmente,
morando em uma cidade como São Paulo. Mas, no momento do ataque, ela não
conseguiu lembrar nada de que seu pai havia dito sua vida toda, o som
estridente veio de algum lugar dentro de si que nem mesmo ela sabia onde estava
localizado. Chegando em casa, contou tudo a seu pai, e começou uma tensa
discussão, com ele dizendo que não era isso que havia ensinado à filha, mas que,
ao mesmo tempo, agradecia muito por ela estar viva e bem.
Arrependida de seus atos, disse a si mesma que, daquele dia em diante,
nunca mais resistiria a um assaltante. Mas, depois de tanta raiva colocada para
fora, se sentiu leve e achou que começaria a gritar mais de vez em quando.
Márcia, finalmente, retornou ao tom azul, a cor que mais combina com ela.
Maria Fernanda Meduna
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