Davi, um estudante de comunicação com
20 anos, na adolescência descobriu que queria trabalhar como fotojornalista
para revelar o desconhecido e conhecer novos lugares. Sempre amou os livros e
locais como praias, cachoeiras e florestas, onde podia refletir sobre a própria
vida. Jamais gostou de relacionamentos e socialização e não confiava nas
pessoas, apesar de querer muito ajudar aquelas que realmente precisam, num
reflexo de relações familiares conturbadas.
Os pais de Davi, Fábio e Helena, um
advogado e uma médica, estavam juntos há muitos anos. Quando ainda eram
recém-casados e voltavam do Ano Novo, eles tiveram um acidente de carro com uma
carreta. Enquanto Helena deu à luz a Davi e morreu no parto, o pai, Fábio,
entrou em profunda depressão com a morte da esposa somada ao fato de ele não
ter desejado ser pai. Fábio não demonstraria apego a Davi, que viveria uma
infância solitária por anos no Rio de Janeiro, até ir morar com a tia paterna,
Fátima, por vontade própria, na adolescência.
Após mais um dia chegando da
faculdade, Davi vê a TV com o jornal passando uma reportagem sobre um programa
do Médicos Sem Fronteiras, com a proposta de levar novos voluntários a aldeias
indígenas remotas do Amazonas por um mês, e fica maravilhado com as
possibilidades que o programa representa, como conhecer um lugar repleto de
natureza, praticar o fotojornalismo e ajudar pessoas em necessidade. A chance
não poderia vir em melhor hora já que o período da faculdade estava terminando.
Davi vai falar com Fátima, que o autoriza, desde que perguntasse antes ao avô
Estevão, que nasceu e cresceu na Amazônia com a família, em um pequeno vilarejo
nas margens do rio Negro.
Davi resolve ir à casa de Estevão em
Petrópolis passar o final de semana para conversar, pois eles sempre tiveram
uma relação carinhosa, em especial na infância, apesar dos problemas do pai. Ao
falarem, Estevão apoia o neto na ida à Amazônia, mas impõe a condição de
prepará-lo por um mês até a véspera da viagem, com o que Davi acaba
concordando, apesar de não gostar da ideia de sacrificar as férias para se
preparar. Estevão, além de ser natural da Amazônia, era major da reserva do
comando de operações especiais de selva do Exército e, mais do que qualquer
outro, sabia do preparo necessário para uma viagem até o interior da Região.
Após se inscrever no programa, Davi
mal chega em Petrópolis e começa a correr, fazer flexões, abdominais e
polichinelos durante o dia inteiro, além de aprender táticas de sobrevivência e
defesa pessoal sob a supervisão austera do major Estevão. A primeira semana é
implacável e extremamente exaustiva para a forma física sedentária de Davi, que
muitas vezes pensa em voltar para casa, mas que, conforme as semanas vão
passando, começa a ganhar gosto pelo condicionamento que estava obtendo, apesar
do cansaço. Ao final de um mês, Davi tem uma perda de peso exemplar, exibe até
alguns músculos e, se apegando ao neto, Estevão decide premiar sua dedicação
com a antiga faca de combate da unidade de comandos especiais.
Davi não acredita que a faca de que
ouvia nas histórias do avô quando criança ainda pudesse existir: mais do que um
objeto que salvou a vida do avô muitas vezes, a faca tinha o brasão da mítica
unidade em que Estevão serviu em inúmeras operações, o “Esquadrão Onça”! Davi
se despede do avô com melancolia pela grande afinidade que passaram a ter e, já
muito cedo no dia seguinte, Fátima acompanha Davi ao aeroporto, onde eles
encontram a comitiva dos Médicos Sem Fronteiras no saguão. Visivelmente
empolgado Davi embarca no vôo para Manaus e esquece sua introversão ao
conversar com todos os outros voluntários que, ao chegar na cidade, embarcam
nos ônibus para percorrer a primeira metade do trajeto: a outra metade seria
feita de barco.
Após mais de 12h horas de viagem, o
motorista estaciona para descansar em um posto de gasolina vazio na beira da
estrada, enquanto Davi é o primeiro a sair do ônibus para urinar. Uma
caminhonete com três bandidos armados chega no posto rendendo os passageiros e
os funcionários, logo depois de ele entrar no banheiro, de onde ouve gritos do
lado de fora e se esconde atrás da porta de um dos boxes, no momento em que um
dos bandidos invade a área. O criminoso abre a porta do sanitário e é
surpreendido por Davi, que acerta a faca do avô em cheio no crânio, sem tempo
de reação. Davi sai do banheiro furtivamente com o revólver que apanhou do
falecido e vê outros dois bandidos de costas para ele, um apontando a arma para
os voluntários e funcionários do posto enquanto o outro rouba os pertences de
todos. Sem tempo para pensar e nenhuma ajuda a caminho, o rapaz se aproxima e
ataca os bandidos, descarregando a munição da arma em ambos, que não têm tempo
de reagir, e libertando os reféns.
O feito do garoto de 20 anos salvando
os reféns de três bandidos vira notícia em todos os jornais do país e a Médicos
Sem Fronteiras recebe doações milionárias para prolongar a viagem da comitiva.
Inesperadamente, Davi recebe uma ligação de Fábio pedindo desculpas por todos
os anos em que ele havia abandonado o filho e, ouvindo o choro e os sentimentos
ao telefone, perdoa o pai, por perceber que, mais além do seu sentimento de
abandono, o seu progenitor tinha um imenso sofrimento. Resolvido com o seu
maior trauma, a viagem de Davi e a comitiva termina com 20.000 índígenas
beneficiados com cuidados básicos de saúde, cirurgias e vacinações.
Estevão, Fátima e Fábio recepcionam
Davi no aeroporto, assim como toda a imprensa e algumas centenas de curiosos.
Fábio dá um abraço fraterno que nunca deu em Davi, pede que volte a morar com
ele, com o que o filho concorda, desde que possa passar os finais de semana com
o avô Estevão. Davi abandonaria a faculdade naquele período, apesar de ainda
amar o fotojornalismo, pois entraria no Exército e, alguns anos depois, estaria
no mesmo “Esquadrão Onça” em que Estevão servira no passado.
José Gabriel Abreu Gomes
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