Eu costumava, na época do Ensino Médio, voltar do colégio de metrô. Ao saltar da estação, andava até a minha casa. Para isso, era preciso atravessar um canal.

Recebi de Deus o dom do discernimento. Mal sabia que isso seria fundamental para mim até na simples volta ao lar.

Num belo fim de tarde, quando o céu de minha terra já ficava com tons de rosa, eu entrei na passarela para passar sobre o rio. De lá, só podia seguir em frente ou voltar atrás. Não havia outra saída.

Eis que dois adolescentes se aproximam, vindo em minha direção. Ao invés de andar pela direita, eles andam pela esquerda, bem na minha frente. Um deles coloca a mão dentro da cueca, e eu penso na hora que ele está pegando uma faca ou algo cortante para me ameaçar.

E agora, o que eu faço? Já que só há dois caminhos possíveis na ponte – para frente ou para trás –, consigo, nesse momento, discernir que o mais sensato é voltar com o passo apertado. Dou meia volta e vou andando rápido para fugir.

Será que eu não recebi dom algum? Será que fui simplesmente preconceituoso? Será que julguei os jovens pela aparência?

Finalmente, chego a um local onde o galho de uma árvore passa sobre a passarela, e viro de costas. Os garotos não estão mais lá. Uma possível evidência de que eles iriam me assaltar.

Não sei se eles pularam da passarela para me pegar ou se eles também deram meia-volta. Por prudência, resolvo atravessar o rio pelo outro lado da avenida.

Na manhã seguinte, a minha jornada começou novamente. No entanto, a partir daquele dia, aprendi a ir sempre pelo outro lado da avenida, que é muito mais seguro.

Gabriel Pereira Meirelles

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