Já estava escuro quando o telefone
de Roberto tocou. Ele acordou com um pulo, e, com um suspiro, se levantou da
cadeira onde havia dormido sem querer, enquanto estudava para sua prova de
cálculo. Por não saber a quem pertencia o número chamando no visor, seu coração
começou a bater mais rápido, e ele tinha certeza que ser medroso não era uma de
suas melhores características.
Sabia também que não havia herdado isso de seu pai, o policial militar
mais corajoso que ele havia conhecido. Talvez se ele tivesse passado mais tempo
com ele, antes do acidente, tivesse perdido um pouco do medo, mas crescer
apenas com sua tímida mãe não ajudou nisso. Afastou esses pensamentos
familiares enquanto suas mãos trêmulas atenderam a ligação.
As palavras foram ríspidas e nervosas: “estamos com a sua avó, Eloísa
Pereira, 86 anos, se quiser que ela viva traga o equivalente a 10 mil reais
para a praça General Osório hoje, quatro da manhã e, se chamar a polícia, ela
morre”. O homem desligou e Roberto ficou estático com o celular no ouvido, não
conseguindo assimilar o que havia acabado de acontecer. Sua avó havia sido
sequestrada, e ele precisava ir salvá-la.
Ele foi correndo ao quarto de sua mãe, a acordou acendendo a luz e
explicou toda a situação. Ela parecia em choque, mas, ainda sim, conseguiu
andar até o seu armário, tirar dele uma caixa de joias com senha, e a entregar
para ele, falando que era o bem de maior valor que eles tinham na casa. Ela
pegou em sua mão e, com seu olhar desesperado, disse para ter cuidado e, que se
alguma coisa acontecesse, era para ele correr até o carro de polícia que ficava
na rua de trás da praça nesse horário.
Em seguida, sua mãe subiu rapidamente ao sótão, trouxe dele uma arma
pequena e a entregou, falando que era do seu pai e que ela iria protegê-lo. Ele
a segurou, o metal frio e pesado em toque com seu corpo, e a colocou no bolso
de sua calça. Sua mãe deu-lhe um último abraço, o relógio marcava 3h50, e
Roberto foi em direção à porta da sala.
A rua estava vazia e escura, e, a cada passo que Roberto dava, ele sentia
mais o peso da arma em seu bolso e o da caixa de joias em suas mãos. O menino
morava a cinco minutos da praça, mas ainda assim pareceu uma eternidade, com o
medo se apoderando cada vez mais de seu corpo e de sua mente. Então, avistou o
portão por que passava todo dia e, com uma respiração funda, entrou na praça.
O homem já estava esperando e, assim que o viu, mandou em tom alto e
grosso que lhe entregasse a caixa, mas Roberto, com a voz trêmula, perguntou
onde estava sua avó. O homem riu e sacou uma arma, o que fez com que o menino
desse um passo para trás e percebesse que havia sido enganado: a avó não estava
com ele. Roberto tirou a própria arma do bolso e atirou para cima. O ladrão
olhou sem entender e avançou para pegar as joias, quando uma sirene de polícia
começou a tocar e a se aproximar: sua mãe estava certa.
O homem tentou escapar, mas a polícia chegou a tempo e conseguiu pegá-lo,
o algemando e o colocando dentro de seu carro para levar até a cadeia. Contudo,
Roberto não conseguiria ficar aliviado até ter certeza que a avó estava bem. Outra
viatura o levou até a sua casa, no bairro vizinho, ela estava lá e levou um
susto ao se deparar com um policial e seu neto em sua porta de madrugada. Roberto,
porém, conseguiu sorrir: ela estava a salvo.
No caminho de volta para casa, no carro de polícia, Roberto sentiu ainda
mais a arma em seu colo. Ele sabia que seu pai havia estado com ele hoje, e o
salvado. Essa foi a primeira vez em muito tempo em que ele percebeu sua
presença perto de si. Sorriu para o céu e agradeceu.
Ao abrir a porta da sala, sua mãe veio correndo abraçar o menino, disse
que a polícia havia ligado e explicou toda a situação. Lágrimas escorriam de
seu rosto, e do menino também, pois não acreditava no que havia acontecido. Ele
olhou para porta ainda aberta e respirou fundo: sabia que aquela situação o
havia mudado para sempre. E então, ele sorriu, e fechou a porta.
Camila Lino
Comentários
Postar um comentário