Tatiana morava em um apartamento em Ipanema com seu pai, José, sua filha, Marina, de dez anos, e seu marido, Alberto. A presença do avô da menina na casa, para a qual se mudara recentemente, incomodava muito a mãe por causa de questões não resolvidas da sua infância. O velho era militar e sempre fora muito duro com suas filhas, em especial com Tatiana, a caçula. Havia uma grande necessidade de que ela fosse forte a todo momento e soubesse se defender. Seu José, mesmo balançando em silêncio na cadeira ao canto da sala, trazia à tona aflições há anos enterradas.
 Em um certo sábado, a casa contava com uma visita: Antônio, melhor amigo de Marina. As crianças brincavam desde a manhã, já que o parceiro dormira lá na noite anterior, mas com o chegar da tarde clamavam pelo almoço. Os dois cismaram com a ideia de comer fora e a mãe preferiu não discutir; além disso, era uma oportunidade de se abstrair do clima opressor reinante no apartamento. Assim, se era para sair, Tatiana queria se sentir bonita. Colocou seu vestido azul-marinho e, das bolsas, escolheu a transversal de lantejoulas douradas, estampada com um jaguar de dentes expostos. Ela estava pronta.
 Pisando fora da portaria, a moça logo notou que o efeito seria o oposto do que imaginara: ao invés de livrar sua cabeça dos problemas de casa, eles a martelariam ao ritmo do ruído da rua e se embaralhariam em meio ao tumulto. Assim, a fim de encurtar a angústia, escolheu um restaurante na praça General Osório, a alguns metros de casa. No estabelecimento, pediu para a filha e o amigo o menu infantil e, para ela, apenas uma água gasosa, estava sem fome.
 Mal saíram do restaurante e Tatiana foi surpreendida com uma ligação do pai de Antônio buscando saber como estava seu filho. Marina logo se preocupou e pediu para que ela guardasse o celular ao avistar um grupo de dez homens se aproximando pela esquina. Nervosa e dispersa, a mãe desprezou as palavras da filha, mas, em questão de segundos, deu de cara com um bando que tentava com violência arrancar o aparelho de sua mão. Em um acesso, ela agarrou o objeto cobiçado com uma mão e, com a bolsa na outra, desferiu golpes contra os meliantes enquanto gritava por ajuda.
 A imprudente ação acabou funcionando: todos os dez assaltantes, separados em grupos menores para atacá-la, correram para longe. Retornando a si, Tatiana apenas apertou a mão portadora do celular para confirmar sua presença enquanto descia rapidamente para abraçar as crianças, paralisadas atrás dela. Os corações pulavam frenéticos e uma profunda e confusa sensação de arrependimento e alívio tomou conta de qualquer pensamento da mãe, que chorava junto da filha, cujo conselho rejeitara há pouco para não se admitir vulnerável.
 Alberto abriu a porta para a mulher e os menores e perguntou de imediato a eles o que havia acontecido, dada a palidez de todos. Após se sentar, Tatiana descreveu os acontecimentos decorrentes do passeio para o marido e o pai. O primeiro, depois de um longo abraço, foi correndo com as crianças buscar água para elas e a mãe. José, sozinho com sua filha, envolveu-a com os braços e pediu desculpas. Não acreditou que ela havia colocado sua vida em risco em um ato de valentia inconsequente. Por fim, ele enxergou o dano que poderia ter causado àquela mulher.


Alexandre A, Carneiro de Mendonça

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