Era a primeira viagem internacional de Helena. Desde os 14 anos, quando começou a estudar francês, ela sonhava em fazer um intercâmbio. Seu sonho se tornou realidade dois anos mais tarde, quando finalmente seus pais lhe deram permissão para realizar a sua jornada.

A superproteção parental tinha um motivo: ela nasceu prematura, e quase não sobreviveu ao parto. Desde então, o medo de perdê-la era tão grande que Clarice e Fábio insistiam em mantê-la sempre por perto. Até chegar o dia da temida separação.

O voo estava marcado para as 21h. No entanto, na tentativa de permanecer reunida o máximo de tempo possível, antes de um longo afastamento, a família acabou perdendo noção do tempo e entrou no aeroporto em cima da hora.

Na despedida, Clarice, muito religiosa, entregou à filha um delicado colar de ouro, cujo pingente tinha o formato de uma cruz. “Esse colar esteve comigo nos momentos de maior necessidade, e vai protegê-la também”, disse a mulher, chorosa, despedindo-se da menina.

Após horas de voo que lhe pareceram intermináveis, ela pousou no seu destino. Estava na França, pronta para passar os próximos seis meses de sua vida. Ao sair do avião, ela percebeu que estava em outra realidade. Só naquele instante, ela se deu conta de que aquilo estava acontecendo de verdade.

Fora do aeroporto, Helena foi em busca do shuttle bus que havia reservado e pago. Ela estava distraída, olhando para o mapa em seu celular quando, de repente, um homem se aproximou falando algo que ela não entendia. Ao se mostrar confusa, o homem apontou uma faca em sua direção. Assustada, ela entendeu que estava sendo assaltada e entregou a carteira e o celular. O colar de sua mãe estava invisível, sob a roupa.

Sem os seus documentos e o celular, a menina ficou desorientada. Levou a mão para dentro da roupa, agarrou a cruzinha e começou a chorar. Foi quando, como mágica, uma senhora percebeu a sua aflição e a ajudou a encontrar o transporte. Ela agradeceu e partiu, feliz por ter encontrado aquela mulher gentil.

Depois de dar mil voltas pela cidade no ônibus, Helena entrou em sua acomodação. “Parece que estou em um filme”, pensou a menina. Mesmo triste pelo que havia acontecido, ela estava em êxtase.

Os seis meses passaram voando, e, ao partir rumo ao lar, Helena estava orgulhosa de si mesma. Ela sabia que levaria consigo por toda a vida os aprendizados que obtivera em sua jornada. Ao chegar em sua casa, tudo parecia ter voltado ao normal. Ela, no entanto, havia mudado.

Maria Clara Aucar

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