No Reino de Patos e Cutias
Lento e desidratado, Vitor Marroni, dezenove anos,
afastou os cabelos castanhos da cara e soltou um bocejo preguiçoso; a cachaça
que lubrificara a festança da noite anterior lhe martelava a cabeça. O digladio
das músicas desarmoniosas, oriundas das mil máquinas de caraoquê da feira de São
Cristóvão e de seus pretensiosos clientes esganiçados, ainda perfuravam a
memória insone do jovem. Talvez a última caipirinha tivesse sido um erro.
O gosto de álcool com açúcar ainda pungente em sua
boca, virou-se para a janela aberta a fim de pegar um ar. O sol queimou suas
retinas secas e pouco viu de primeira, mas logo a paisagem ensolarada de seu
condomínio barrense tornou-se nítida. Pensou que era um privilégio acordar
nesses ares serenos, mas, como a noite anterior demonstrara, não era ali que a
vida acontecia; a cidade era muito mais: mais vida, mais cultura, mais luta.
Esse tempo todo, o alarme na escrivaninha gritava
incansável, anunciando um prospecto exaustivo: Vitor precisava levantar e ir
até o Centro da Cidade para assistir a aula na faculdade de direito. Já havia
perdido muito tempo lamentando a ressaca na cama; precisava tomar um banho,
escovar os dentes e partir. Comer era impossível com o estômago revirado, então
apenas tomou uns goles de leite para aliviar a azia e disparou rumo ao elevador.
Parou de repente no meio do corredor; lembrou-se de
algo que não podia esquecer. Além de
dinheiro, ipod e smartphone, sempre carregava o antigo celular no bolso para
entregar caso fosse assaltado. Vitor voltou rápido para pegar o aparelho de
sacrifício e chegou à porta do elevador entreaberta a tempo de enfiar o braço
pela fresta minguante, forçando-a a abrir-se.
Correu até o ônibus e entrou no veículo ao som da
própria respiração ofegante. Não resistiu à tentação de cerrar os olhos para
aproveitar alguns minutos extras de sono, e, quando acordou, a paisagem
esverdeada da Barra da Tijuca havia sido substituída pelo cinza industrial do
Centro da Cidade. Desejando ainda alguns momentos de paz, Vitor decidiu
atravessar o arborizado reino de patos e cutias que era o Campo de Santana, em
vez de tomar sua rota habitual pela calçada.
Logo que entrou no bosque, um sujeito de meia-idade,
vestido de camisa, bermuda, óculos escuros e com mochila nas costas,
aproximou-se pela retaguarda e discretamente ordenou que Vitor parasse e lhe
entregasse qualquer coisa valiosa em sua pessoa; “não estou a fim de furar
ninguém hoje” – finalizou em tom de ameaça. O jovem estudante congelou de medo
por um instante, mas seu instinto ordenou que não parasse de andar. Recompondo-se
do choque, recordou-se de quando foi assaltado da última vez, na Barra, e
percebeu, com estranha frieza, que agora tinha vantagens a explorar: era dia,
havia muitos transeuntes e as saídas do parque eram vigiadas por guardas;
bastava enrolar o assaltante.
“Sou estudante, venho de longe” – suplicou Vitor, sem
parar de andar – “trago pouca coisa comigo, justamente para evitar ser
assaltado”; e mostrou, com certa medida de autossatisfação, o celular antigo,
para provar sua narrativa. O bandido insistiu, cada vez mais ansioso conforme
se aproximavam da saída do Campo; mas Vitor seguiu em frente, repetindo a mesma
história de coitado que improvisara no começo da abordagem. O homem, por fim, perdeu
a paciência, e ordenou que Vitor entregasse todo o seu dinheiro em vez dos
pertences – um total de 17 reais.
Durante as aulas e a volta para casa, o estudante reviveu o ocorrido
várias vezes em sua memória, ávido de relembrar cada detalhe e regozijar-se com
sua própria esperteza. Era apenas uma pequena vitória, mas parecia algo maior;
como se a cidade o houvesse testado e ele, respondido à altura. Vitor dormiu
aquele dia com uma estranha sensação de alívio, na certeza de que ele, um
protegido da Barra da Tijuca, não era tão indefeso como se havia de esperar; e
desejou estar na cidade para mais coisas aprender, de preferência sem ter que
passar por isso de novo.
Vitor Marroni
Comentários
Postar um comentário