Rodrigo não aguentava mais ficar em casa. Preso em seu apartamento fazia dois meses, por conta da pandemia apocalíptica, o advogado perdia um parafuso a cada hora que passava. A vontade já não cabia dentro dele: era hora de ir à praia. Depois de preparar uma pequena bolsa apenas com o necessário e descer para a portaria, o homem deu de cara com Dona Lourdes, a vizinha do andar de cima, que passeava com seu cachorro em frente ao prédio. De sorriso no rosto, a senhora disse, como quem dá bom dia: “Diguinho, querido, use máscara e fique esperto, a rua está perigosa!”. Rodrigo não deu muita atenção ao segundo conselho, ademais, o que poderia acontecer com um homem forte e corajoso, indo dar um simples mergulho na praia às oito da manhã? A única ameaça concreta era o invisível e letal Coronavírus, e por isso a máscara era essencial em sua jornada, como bem havia lembrado Dona Lourdes. Com ela, estava protegido e poderia caminhar sem maiores preocupações.

Mas o mundo não era mais o mesmo: as ruas estavam desertas, os estabelecimentos fechados, e as poucas pessoas que preenchiam o espaço urbano faziam da rua sua morada, largadas ao relento. E o vírus poderia estar ali, suspenso no ar por três horas após o espirro de um estranho adoecido, o que o deixava cada vez mais tenso. Mas ele tinha a máscara, e bastava que não fizesse contato com ninguém que a missão seria cumprida com sucesso. Foi quando, subitamente, um homem robusto apareceu correndo e abordou Rodrigo, exigindo que lhe passasse tudo que tinha em mãos. Seu coração quase pulou da boca, e a resposta veio num grito: “Pega tudo, mas, por favor, mantenha distância e não leve a máscara!”.

Depois de arremessar seus pertences ao assaltante a uma distância de mais ou menos três metros, o advogado, atônito, se deparou com a praia. O assalto havia ocorrido na esquina da orla e, sem mais nada a perder, só lhe restava o glorioso banho de água salgada. Rodrigo correu para a areia e pulou nas ondas como uma criança, esquecendo tudo ao seu redor. Renovado de corpo e alma, o homem recolheu sua máscara, deixada na beira do mar, e tomando os devidos cuidados, caminhou de volta pra casa sem tirar o sorriso do rosto. Sim, ele deveria ligar para o banco e cancelar seu cartão, encomendar uma nova carteira, fazer outra cópia da chave e o assalto não tinha sido agradável. Mas “Diguinho” não se importava, sua saúde estava garantida, e ele só precisava de um mergulho no mar.

Vinicius Portella

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