Já passava das cinco horas da tarde e eu estava apenas começando a redigir uma peça com o prazo de entrega datado para a manhã do dia seguinte. Meu chefe saiu de sua sala apressado e jogou um envelope em minha mesa. Eu tentei explicar que estava com muitas demandas para o dia, mas ele, como sempre, afirmou ser essa uma tarefa urgente. Por estar familiarizada com o recorrente ritual, sabia que não tinha tempo a perder. Peguei minha bolsa e saí para protocolar a petição no fórum.
Enquanto marchava pela rua, notei que estava chovendo e, então, coloquei o envelope dentro da bolsa e comecei a correr. Percebi que estava sem celular e sem relógio. Não sabia quanto tempo ainda me restava, mas o fórum fechava às seis da noite.
Ao chegar na esquina do meu destino, me deparei com a concentração agitada de uma manifestação. Tentei ao máximo furar as fileiras humanas. Esbarrei em muitas pessoas e fui empurrada, quando senti alguém segurando a alça da minha bolsa. Nervosa, puxei com força o objeto, até que com muito custo a mulher o soltou e desapareceu.
Mesmo abalada, a adrenalina era tanta que continuei meu caminho até conseguir driblar a multidão. Olhei para frente e finalmente havia chegado às escadas do fórum. O segurança me alertou que o local fecharia em onze minutos. Assim, mesmo sem fôlego, apertei o passo por entre os corredores e fiquei aliviada ao constatar que os guichês de protocolagem ainda estavam abertos.
Respirei fundo e confiante de que tinha dado tudo certo. Até que, ao abrir minha bolsa, vi que ela estava vazia e com o fundo rasgado. Uma mistura de pavor, raiva e medo tomou conta de mim. Tive um momento de desespero, mas me recompus ao imaginar o semblante de decepção em meu chefe. Pensei rápido e sabia que, se eu conseguisse acessar a página virtual dele, poderia reimprimir e ainda protocolar o documento. Ao chegar minha vez, contei o ocorrido à atendente, que se solidarizou com a história e me ajudou.
Exatamente às cinco horas e cinquenta e oito minutos, o registro foi feito. Voltei para o escritório andando devagar, flutuando pelo caos do Centro da Cidade. Estava toda molhada da chuva, sentindo a gripe se instalando em mim, porém me sentia vitoriosa. Quando meu chefe se inteirou da minha pequena saga, decidiu me liberar mais cedo e disse para não me preocupar, pois ele mesmo iria concluir a peça pendente.

Isabella Lins Pereira

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