Os três assaltantes


Era um sábado como outro qualquer em que Jaqueline passeava com sua família no shopping. Cansada, decidiu levar para casa as duas filhas, Victoria de nove anos e Rafaela, de um, na companhia da babá. O marido, Rodrigo, resolveu ficar até mais tarde.
Pagou o estacionamento e foi em direção à rua. Ao chegar no viaduto que antecede o túnel Zuzu Angel, em frente à comunidade da Rocinha, em São Conrado, Jaqueline se deparou com um trânsito que se estendia por alguns quilômetros. Logo percebeu o que estava acontecendo: um arrastão comandado por três jovens que, drogados e armados, coletavam pertences entre os carros.
Rapidamente lembrou de seu trunfo: uma bolsa falsa que carregava desde os tempos de faculdade no banco da frente, com objetos velhos como celular quebrado, carteira rasgada e um batom fora da validade. Os pertences de verdade ficavam na mala do carro, que não seria acessada pelos meliantes. Além de pensar na logística do assalto, não tirava da cabeça a preocupação com suas duas meninas, que, do banco de trás do carro, assistiam a tudo assustadas e quietas.
Jaqueline logo percebeu que seu carro seria o próximo da fila. Não demorou muito e os três bandidos vieram em sua direção. Enquanto dois batiam na janela traseira do carro solicitando bens da babá, que gritava afirmando estar sem nada, o “chefe” veio na direção da motorista.
Ele apontou a arma para ela e demandou “tudo”. Ela pediu calma porque estava com crianças e entregou a bolsa falsa, com os itens velhos, enquanto rezava para o celular verdadeiro não tocar e pros assaltantes não perceberem que o relógio que ela deu estava parado. As coisas aconteceram rápido e devagar ao mesmo tempo e as crianças permaneceram quietas atrás.
Depois que os três foram embora e tudo se acalmou, a mais velha começou a chorar porque, finalmente, passada a adrenalina, entendera o que havia acontecido. A mãe tentou dirigir para casa acalmando-a, torcendo para o trânsito fluir bem.
Todas chegaram a salvo. Jaqueline ligou para o marido para alertá-lo e contou o que aconteceu, chorando, porque o nervosismo ainda não passara. Mas, ao mesmo tempo, agradecia por estar em casa com suas filhas e pelo fim da pior parte.
Não é fácil ser assaltada, ainda mais com duas crianças pequenas no carro. Hoje, todas as vezes em que passa naquele lugar, Jaqueline lembra de um dos piores dias de sua vida, feliz de tê-lo vencido.

Victoria Perez

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